quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

O garoto das colinas.


- oh, garoto! por que gostas tanto de escalar estas verdes colinas?
- ora essa, madame! existe mais belo lugar para estar?
- há pradarias e campos extendendo-se aos seus pés, garotinho. lindas paisagens ao final destas colinas!
- não me contenta a coloração verde das pradarias, e os campos são demasiado baixos.
- mas são igualmente verdes as colinas nas quais nos encontramos no momento, pequeno garoto!
- sim. porém, o verde das pradarias jamais será tão verde quanto o verde das colinas, madame.
- como pode afirmar tal coisa, sendo o verde a mesma cor tanto aqui quanto ali? certamente o jovem garoto não insinuaria que o verde escurecido das pradarias é menos digno de apreciação do que o claro verde das colinas!
- de maneira nenhuma! em hipótese alguma poderia insinuar coisa tal. digo apenas que o verde das colinas detém maior pureza, maior esplendor. não por ser mais claro. simplesmente por...ser.
- não compreendo, doce garoto.
- tente apenas...sentir. olhe ao seu redor, não com olhos mundanos. observe como a suave brisa dança sobre o tapete verde das colinas. veja que maravilhoso dueto vento e verde entoam! sinta o aroma do verde das colinas. aroma igual nunca encontrarás em pradaria alguma.
- posso afirmar-lhe de coração: nunca antes havia sentido nada semelhante! sinto minha alma renovando-se a cada vez que inspiro esse ar! meu corpo encontra calor e conforto nessa brisa! mesmo assim, devo perguntar-lhe: e quanto às demais paisagens?
- demais paisagens?
- sim! nunca antes viu os trilhos do trem, que seguem em direção à aldeia? não gostas de apreciar paisagens humanas? as inovadoras maquinarias, o aroma de pão fresco pela manhã...
- todos os aromas encontram-se nas colinas, gentil madame. máquinas não se fazem necessárias aqui. seus trilhos de trem não me levariam a lugar algum.
- mas não lhe encanta apreciar as pessoas, garotinho?
- eu as aprecio, madame.
- daqui de cima? a cidade inteira transforma-se em um ínfimo ponto, menino! seria impossível ver qualquer coisa a essa distância!
- e há no mundo melhor forma de apreciar as pessoas, madame? de cima das colinas, as pessoas nem ao menos sabem de minha indiferente existência!
- e sob qual ângulo isso pode ser encarado como algo bom?
- madame, a única maneira de observar plenamente os homens é não fazer-se notar. pois, quando notam que estão sendo observados, os homens se transformam, e tudo torna-se teatro. seus atos são meticulosamente planejados, assim como são suas falas. além disso, longe assim, toda a maldade e podridão dos homens é diminuída até quase deixar de existir.
- és bastante inteligente para seu tamanho.
- a madame também é deveras inteligente. caso contrário, jamais teria me encontrado.
- garoto, há quanto tempo estás aqui nessas colinas?
- há tempo suficiente.
- nunca se sente sozinho?
- sempre há lugar para mais um, se é isso o que desejas saber.
- o pôr-do-sol deve ser lindo visto daqui.
- já lhe disse que pode ficar, madame.

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