Hoje a nostalgia espremeu-se no vão entre a porta da frente e o chão, adentrou o apartamento e sentou-se à mesa da cozinha. Interrompeu meu chá da tarde com divagações sobre um passado que eu mesmo julgava ter esquecido há muito... há muitos copos de whiskey e doses de absinto; há muitos tragos de cigarro, aquele detestável Marlboro vermelho, há alguns tragos de maconha. Todos os venenos criados ou explorados pelo homem, e que nada fazem além de destruir o próprio homem. Mas, afinal, a vida em si também nada mais faz do que isso.
A mera recordação do sabor horrível de absinto e whiskey em minha garganta foi capaz de revirar todo o meu trato gastrointestinal, e tentei afastar a súbita náusea com um gole de chá.
Levantei-me - a nostagia ainda tagarelando incessantemente - e me dirigi ao baú na sala. "Fica um ano inteiro sem dar as caras, e quando aparece, não cala a maldita boca..."
Encontrei o álbum de fotos, grande e empoeirado, e caminhei de volta à mesa da cozinha. Mais um gole de chá.
A outra era incansável. Falava para ninguém em particular, observando as estrelas que com tanto esmero costurei e pendurei pelas paredes. Não esperava respostas minhas - talvez nem ao menos esperasse que eu a escutasse. Apenas falava. Narrava meu passado: os amigos que mudaram de cidade, meu labrador que havia morrido, a época de colégio, romances acabados, tudo que um dia me havia sido tão caro e que hoje eu mantinha sob um lençol de esquecimento, protegendo minha mente de lembranças desagradáveis.
E ali estava ela, rasgando o lençol com os dentes, fazendo uma bagunça na minha cabeça e na minha casa.
Abri o álbum e respirei fundo. A primeira foto, uma garota loura de cabelos encaracolados, molhados pela água do mar na frente do qual ela posava alegremente. Mandava um beijo para a câmera - para mim.
Levantei-me uma vez mais. No armário da cozinha, peguei um copo, o qual enchi com pedras de gelo. De dentro do mesmo baú em que estava guardado o álbum de fotografias, puxei uma garrafa de whiskey. Praticamente cheia e também empoeirada.
Enchi o copo, sentei-me em frente à nostalgia, o álbum aberto entre nós. Ergui o copo num brinde irônico e dei uma grande golada. Que gosto terrível.
Comecei a folhear o álbum, minha visitante adaptando sua narrativa a cada nova foto. Sorrisos em faces de pessoas das quais eu nem ao menos lembro os nomes. Eu, alguns anos mais jovem, envolvido nos braços de um avô hoje em dia morto. Meu cachorro dormindo na minha cama de casal, ocupando todo o espaço que deveria ser meu... e da garota loura. Enchi o copo novamente. Mais uma golada.
Nostalgia terminou seu falatório exatamente quando cheguei à última página do velho álbum - e à última gota da garrafa de whiskey.
Ela tinha o olhar vago, sorrindo enquanto observava com ávido interesse as estrelas na parede.
Sob os efeitos imperdoáveis da alta quantidade de álcool consumida, resolvi por fim falar. A voz saiu enrolada e meus olhos começaram a marejar.
"Que direito tem você de desaparecer por tanto tempo, me deixar com essa sensação de alívio que me permite voar sem restrições e correntes... e voltar assim, subitamente, irrompendo como se fosse fumaça da minha xícara de chá?" Que cena ridícula. Um rapaz chorando feito criança na cozinha de casa. As lágrimas eram tantas que começavam a manchar as fotografias. Pousei meu olhar sobre elas, observando como as gotas distorciam o sorriso de dentes ligeiramente tortos da loura. "O que quer de mim? Que admita o quão vazia minha vida é agora? Talvez ela seja mesmo. E talvez meu carpe diem nunca tenha sido de fato posto em prática. Quer que eu admita que sim, voltaria se assim fosse capaz? É muito tarde. Pois saiba que sim, eu -"Mas quando voltei a levantar os olhos, ela já não estava mais lá.
Sequei o rosto, joguei a garrafa vazia de whiskey fora, guardei o álbum de fotos no velho baú.
Outra visita dessas e acabarei me tornando membro do Alcoólicos Anônimos.
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Depois de quase um ano (!!!) sem aparecer por aqui - graças aos mesmos motivos de sempre: faculdade, provas, etc e tal -, finalmente dou as caras de novo. Esse texto eu praticamente cuspi no bloco de notas ontem de madrugada. Escrevi tudo sem pausa nenhuma, em uma tacada só (acho que por ter ficado tanto tempo sem escrever). Mas deixei pra escrever o final - literalmente as últimas linhas - agora, e empaquei. Não sei se me agradou, mas enfim.
Trocando de assunto, ontem também mudei o template do blog. Tirei a tagboard, e perdi muitos dos comentários que haviam sido feitos por causa disso. ): Tudo bem, dá pra superar!
É isso aí! Espero não demorar outro ano pra postar de novo!




