quinta-feira, 23 de dezembro de 2010



As últimas madrugadas entraram descontraidamente pela janela de meu quarto, carregadas de um ar que pesou em meu desavisado coração e fez com que meu frágil corpo afundasse alguns centímetros no colchão velho de meu leito.
Debochada, a madrugada de ontem sentou-se nos pés da cama e ficou me encarando. Como se esperasse um cumprimento meu, um "como vai?". Mas apenas desviei meu olhar, tentando em vão assoprar o peso mórbido e insone do cômodo. Ela me retribuiu com um sorriso sádico, dizendo:
"Fechar as portas e janelas de nada adianta, pequeno. O peso continuará a escorrer pelas frestas."
Notei transtornado a marca por ela deixada nos lençóis quando levantou-se e saiu.
Resolvi deixar janela e cortinas abertas essa noite. A porta, entretanto, permaneceu fechada. Não posso deixar certos princípios pessoais de lado, e manter as portas fechadas é um direito do qual não me desfaço. Algumas coisas precisam ser mantidas do lado de fora de mim - e talvez existam outras que não devem escapar daqui de dentro.
E com a janela aberta, ela veio. Uma madrugada diferente da anterior: esta sem inibição alguma deitou-se sobre meu peito e permaneceu muda por muito tempo, fitando o teto manchado. Seu peso era tamanho que me cansava a respiração e transformava minhas pretendidas palavras em suspiros ofegantes. Após um longo período contemplando a constelação do meu teto, ela curvou seu corpo e sussurrou em meu ouvidos:
"Você precisa abrir aquela porta, ou acabará trancando-se aqui para sempre. E esse denso ar que nós todas trazemos a cada noite aos poucos corroerá tudo o que habita esse insípido lugar."
Agora espero a visita da madrugada seguinte. Fechei novamente janela e cortinas, e estou escrevendo na mesa que acabei de arrastar para a outra extremidade do quarto, bloqueando a porta.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

- O que foi?
(ou O Motivo do Meu Silêncio)


Levanta então seus olhos em minha direção, aqueles grandes olhos que tanto encantam e procuram respostas muitas vezes vazias. Grandes não pelo tamanho em si, mas pela gigantesca dimensão daquilo que a vida já havia posto diante deles.
Novamente me perdia, como incontáveis vezes antes, naquele olhar. E quão perto da sublime perfeição descrita por tantos escritores que dedicaram suas vidas a riscar, sob o som de uma pena tinteiro, a história da máxima devoção e adoração - quão mais perto dessa perfeição eu haveria de estar em qualquer outra ocasião que não fosse o agora que compartilho contigo?
Esse agora que percorre cada centímetro de pele e vida que há em mim, esse agora que me faz segurar a respiração momentaneamente diante da visão que a mim me parece tão harmoniosa e delicada que poderia desaparecer com um inspirar ou expirar mais intensos, esse agora pelo qual espero com tamanha ansiedade durante todos os outros tempos verbais em que minha existência passeia, esse agora que quero transformar em depois, em para sempre.
Os minutos brincam ao meu lado e ondas de um mar que existe dentro de mim chocam-se contra a encosta de meu peito quando olho para você. Talvez nunca consiga encontrar oração em prosa ou verso que se aproxime da imensidão que sinto ao vê-la. Amor é palavra curta demais para tamanha sensação. Quatro pequenas letras perderiam-se facilmente nas brumas de branca felicidade em mim. Tenho aqui guardado algo muito maior que o amor.
Dias transformam-se em estrelas e luar enquanto decoro cada detalhe de seu rosto, cada traço que se move com o abrir de um sorriso, cada fio de cabelo que lhe cai sobre os olhos...
Ah! quem me dera conseguir estancar o tempo, lhe cantar cada poema ainda não escrito sobre nós, para depois deitá-la em meu colo e vê-la adormecer aquecida sob os carinhos de minhas mãos frias.