
As últimas madrugadas entraram descontraidamente pela janela de meu quarto, carregadas de um ar que pesou em meu desavisado coração e fez com que meu frágil corpo afundasse alguns centímetros no colchão velho de meu leito.
Debochada, a madrugada de ontem sentou-se nos pés da cama e ficou me encarando. Como se esperasse um cumprimento meu, um "como vai?". Mas apenas desviei meu olhar, tentando em vão assoprar o peso mórbido e insone do cômodo. Ela me retribuiu com um sorriso sádico, dizendo:
"Fechar as portas e janelas de nada adianta, pequeno. O peso continuará a escorrer pelas frestas."
Notei transtornado a marca por ela deixada nos lençóis quando levantou-se e saiu.
Resolvi deixar janela e cortinas abertas essa noite. A porta, entretanto, permaneceu fechada. Não posso deixar certos princípios pessoais de lado, e manter as portas fechadas é um direito do qual não me desfaço. Algumas coisas precisam ser mantidas do lado de fora de mim - e talvez existam outras que não devem escapar daqui de dentro.
E com a janela aberta, ela veio. Uma madrugada diferente da anterior: esta sem inibição alguma deitou-se sobre meu peito e permaneceu muda por muito tempo, fitando o teto manchado. Seu peso era tamanho que me cansava a respiração e transformava minhas pretendidas palavras em suspiros ofegantes. Após um longo período contemplando a constelação do meu teto, ela curvou seu corpo e sussurrou em meu ouvidos:
"Você precisa abrir aquela porta, ou acabará trancando-se aqui para sempre. E esse denso ar que nós todas trazemos a cada noite aos poucos corroerá tudo o que habita esse insípido lugar."
Agora espero a visita da madrugada seguinte. Fechei novamente janela e cortinas, e estou escrevendo na mesa que acabei de arrastar para a outra extremidade do quarto, bloqueando a porta.
