
(ou O Motivo do Meu Silêncio)
Levanta então seus olhos em minha direção, aqueles grandes olhos que tanto encantam e procuram respostas muitas vezes vazias. Grandes não pelo tamanho em si, mas pela gigantesca dimensão daquilo que a vida já havia posto diante deles.
Novamente me perdia, como incontáveis vezes antes, naquele olhar. E quão perto da sublime perfeição descrita por tantos escritores que dedicaram suas vidas a riscar, sob o som de uma pena tinteiro, a história da máxima devoção e adoração - quão mais perto dessa perfeição eu haveria de estar em qualquer outra ocasião que não fosse o agora que compartilho contigo?
Esse agora que percorre cada centímetro de pele e vida que há em mim, esse agora que me faz segurar a respiração momentaneamente diante da visão que a mim me parece tão harmoniosa e delicada que poderia desaparecer com um inspirar ou expirar mais intensos, esse agora pelo qual espero com tamanha ansiedade durante todos os outros tempos verbais em que minha existência passeia, esse agora que quero transformar em depois, em para sempre.
Os minutos brincam ao meu lado e ondas de um mar que existe dentro de mim chocam-se contra a encosta de meu peito quando olho para você. Talvez nunca consiga encontrar oração em prosa ou verso que se aproxime da imensidão que sinto ao vê-la. Amor é palavra curta demais para tamanha sensação. Quatro pequenas letras perderiam-se facilmente nas brumas de branca felicidade em mim. Tenho aqui guardado algo muito maior que o amor.
Dias transformam-se em estrelas e luar enquanto decoro cada detalhe de seu rosto, cada traço que se move com o abrir de um sorriso, cada fio de cabelo que lhe cai sobre os olhos...
Ah! quem me dera conseguir estancar o tempo, lhe cantar cada poema ainda não escrito sobre nós, para depois deitá-la em meu colo e vê-la adormecer aquecida sob os carinhos de minhas mãos frias.