
O vinil que rodava no grande e antigo toca-discos emitia um som de borbulhas, como água fervendo na panela. Não sei por qual estranho motivo esse barulho fazia-me sentir em algum lugar parecido com um lar. Mas era apenas um cabaré sujo e indecente, cheirando a uísque barato e falsos elogios.
A fumaça de meu cigarro - há muitos minutos estático entre meus dedos, na mão que apoiava meu queixo em uma pose de tedioso descaso - começava a atrapalhar minha visão, embaçando meus óculos.
Mesmo quando a névoa de nicotina havia se dissipado, tudo o que eu via era desfocado. Desde cedo o mundo se mostrou a mim como algo sem valor, digno de bocejos. Como uma jóia oxidada. Minha vida sempre foi uma constante prova de que Deus existe e não gosta de mim. Ando pelas ruas, donas de um colorido desbotado pelos anos, e apenas deixo-me levar por cada calçada, cada poste sem luz.
Volto à realidade, deixando de lado meus devaneios para levantar os olhos em direção ao palco mal construído da casa de shows. Diane saúda a platéia de homens já atordoados pelo álcool e começa a cantar. No primeiro verso seu olhar pousa sobre o meu, e ela sorri com o canto da boca. Timidamente, sem mostrar os dentes. Seems like old times, having you to walk with...
Tento sorrir de volta. "Quando você sorri, parece estar prestes a chorar", disse-me ela uma vez. And it's still a thrill just to have my arms around you...
Aguardo até ela cantar a parte sobre jantares e flores. Lanço mais um olhar ao palco, apago meu cigarro no cinzeiro cheio, pego meu casaco e vou embora.
Texto feito durante uma pausa nos estudos de Imunologia. Bem corrido, bem jogado, bem nas coxas... não ficou como deveria, talvez eu volte e desenvolva-o como ele merece. Assim que tiver tempo.