sábado, 5 de janeiro de 2008

havia chuva.
água escorria pelas calhas das casas. todas as águas destinadas ao mesmo bueiro, embora vindas de calhas diferentes, de mundos diferentes.
o sol persistia, corajoso em seu posto de maior estrela, apesar dos pingos d'água que caíam do céu.

"chuva de verão". ele sabia.
nunca vira a chuva cair, jamais admirara o belo retrato que é uma tarde de chuva.
gostaria de ter visto os pingos escorrerem pelas folhas esverdeadas das árvores. mas não. nunca.

porém, ele sabia.
encarando absolutamente nada - um mar de nada, o vazio - através de sua janela, conseguia ouvir o barulho da água batendo nos telhados, nos guarda-chuvas dos pedestres, no vidro dos carros.
sabia que era uma chuva de verão, pois sentia o sol aquecendo seu braço, estendido para o lado de fora, esperando os pingos caírem.
sempre quis abraçar a chuva.
"mas, daqui a alguns instantes, ela vai embora. me deixará, como sempre faz."
e novamente o garoto via-se sozinho.

não. não via-se.
jamais vira coisa alguma.
era incapaz de enxergar uma tarde de primavera, as damas-da-noite caídas ao chão.limitava-se a sentir seu cheiro, a tocar suas pétalas.
mirava o céu noturno e só via o nada. acima de sua cabeça, não existia lua, não existiam estrelas ou nuvens. não existia esperança.

existia a tortura.
deprimia-se por não ter sonhos. suas noites eram sequências de borrões brancos, avançando, sufocando. o mar de nada sempre o assombrava, não importava se mantinha os olhos abertos ou cerrados.
mesmo as noites. não conseguia diferir noite de dia, tarde de cedo. isso o frustrava.tocar a grama, sentir seu cheiro, mas não poder ver seu verde, tão brilhante que ofusca os olhos.

somente a chuva o trazia alegria.
pois, para ele, não era necessário vê-la.
sentir a chuva escorregando por seu corpo o completava.
era ela, e somente ela, que o acolhia em seus braços molhados.
apenas a chuva chorava com ele.
e, mesmo que ela fosse sempre embora, deixava seu perfume no ar, para não ser esquecida.
no entanto, ele não conseguia abraçá-la. a chuva esvaía-se a cada tentativa.
"eu quero agradecê-la, chuva. por trazer à mim sua brisa, avisando-me que não demorará para chegar. por chover para mim, só para mim. deixe-me abraçá-la, deixe-me agradecer".
a chuva sussurrava em seus ouvidos.
"não preciso que me abraces. tua alma me abraça cada vez que apareço".


sempre andava de olhos abertos, apesar de nada ver.
era somente na chuva que os fechava.
pois só assim era capaz de abrir a alma.
e sorria.


(eu disse pra suzana que chuva me inspira!)

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